Há agências de tripulação, há aplicações e há grupos de Facebook com quarenta mil membros. Vale a pena usar tudo isso. Mas a verdade honesta do setor dos superiates na primavera é que uma enorme fatia dos primeiros trabalhos continua a encontrar-se a andar a pé por um cais e a perguntar.
Antibes, em finais de março, é o sítio. O Port Vauban é a maior marina de iates da Europa, as crew houses ficam a dez minutos a pé dos barcos e a cidade inteira está montada exatamente para isto. Palma de Maiorca é a outra, um pouco mais tarde na época e, dizem alguns, um pouco mais acolhedora. De Lisboa há voo direto para Nice e para Palma quase todos os dias, e em março custa menos do que uma noite fora — é literalmente o passo prático que separa a ideia do trabalho. Se estás em Cascais, em Vilamoura ou em Portimão, já viste estes barcos passar; a diferença é que lá estão todos ao mesmo tempo e todos a contratar.
Antes de ires
Precisas do STCW Basic Safety Training (cinco a seis dias, entre 800 € e 1.200 €, válido cinco anos) e de um exame médico ENG1 feito por um médico aprovado, cerca de 135 € e meia manhã, válido dois anos. Sem isso ninguém te pode pôr legalmente num barco, e todas as conversas acabam educadamente em «volta cá quando os tiveres». O RYA Powerboat Level 2, a partir de uns 230 € por dois dias e sem validade, ajuda muito quem quer convés; um curso de interior ajuda hospedeiras e hospedeiros de bordo. Somando tudo, incluindo a higiene alimentar de Nível 2 que custa entre 12 € e 35 € online, estás a olhar para 1.200 € a 2.400 € antes de ganhares um cêntimo. Não vale a pena disfarçar: é esta a verdadeira barreira à entrada, e quem te disser o contrário está a vender-te um curso.
Reserva uma crew house para quinze dias, não para uma semana. The Crew Grapevine, a Glamorgan e mais umas quantas são instituições — vais partilhar beliche com gente a fazer exatamente o mesmo que tu, e as dicas trocadas ao pequeno-almoço valem mais do que qualquer guia, incluindo este.
O dia
De pé às seis. Polo engomado, calções ou calças de sarja, sapato de convés, óculos de sol fora da cabeça. Vinte CV impressos numa micas: uma página, fotografia em cima à direita, certificados listados, zero conversa fiada. No cais às sete, porque é a essa hora que a tripulação está a lavar o barco e o comandante ou o imediato está no convés com um café.
Não estás a pedir emprego. Estás a perguntar se precisam de daywork. Daywork são cem a cento e cinquenta euros por um dia a polir inox, e é a entrevista a sério: aparecer à hora, trabalhar sem que te digam duas vezes, e ser o tipo de pessoa com quem passariam quatro meses no mar de boa vontade. Os barcos contratam primeiro de entre os seus dayworkers.
O imediato não está a ler o teu CV. Está a ver se enrolas a mangueira como deve ser.
Como é uma boa semana
- Dias 1–2: muitos «não, desculpa» e um par de «deixa o CV». Inscreve-te pessoalmente em duas ou três agências nessa mesma tarde — a Bluewater e a YPI têm escritório na cidade e querem ver-te a cara.
- Dias 3–5: o teu primeiro daywork. Fá-lo de forma irrepreensível. Pergunta à tripulação quem mais anda à procura de gente; eles sabem.
- Dias 6–10: repetes daywork no mesmo barco ou vais recomendado para outro. Agora tens uma referência de iate, e isso muda todas as conversas seguintes.
- Dias 10–14: se nada ficou fechado, uma viagem de entrega ou uma semana de charter em freelance é o caminho rápido para o tempo de mar. Diz que sim.
O dinheiro e a realidade
Um primeiro lugar de marinheiro de convés ou de hospedeira de bordo paga a partir de uns 2.800 € por mês, a viver a bordo, com tudo pago, e com gorjetas de charter por cima que num bom verão podem duplicar esse valor. Dito de forma clara: é várias vezes o que a mesma pessoa ganharia numa época de verão no Algarve, e o dinheiro é praticamente todo poupança, porque não pagas renda nem comida. A realidade são dias de dezasseis horas durante os charters, um camarote partilhado com um desconhecido e nenhuma palavra a dizer sobre para onde vais. Quem aguenta mais do que uma época costuma ficar cinco.